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Brincar é coisa séria

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Brincar é uma expressão que está naturalmente dentro do homem, e que pode ser manifestada de diversas formas.

O essencial de brincar é a liberdade de tempo, de espaço e de criação. Quem brinca é espontâneo, e a espontaneidade é a linguagem da alma.

Brincar é viver em plenitude, é uma forma de afirmar a alegria da vida.

Brincar é a maneira mais simples de reorganizar nossa rotina, de mostrar o nosso interior, o nosso lado avesso.

A partir da brincadeira o ser humano faz os contatos sociais mais puros. É uma necessidade básica, que deveria ser explorada com mais seriedade. Até os animais brincam… E através do ato de brincar eles se descobrem, se relacionam, se conhecem, medem força, treinam, conquistam o respeito e seu espaço.

Com o humano não é diferente, porque brincar é necessário para a construção do ser. E esta necessidade se estende para além da infância. É como se fôssemos um violão, que só ecoa sua mais bela canção quando todas as cordas são dedilhadas, são “acionadas”. Mas infelizmente tem gente que morre e só aciona uma ou duas cordas do violão da sua vida.

Brincar é uma coisa séria: faz ficar focado, faz levar um objetivo até a última consequência, desperta dedicação e prazer. Os adultos deveriam realizar suas atividades com a “seriedade” das brincadeiras infantis… Porque é na brincadeira que a criança é unidade, é inteira: sente, pensa, vive, vai além, exagera, extrapola.

Quando a criança pensa em fazer um carro de rolimã ela pensa nele por inteiro. Planeja o que vai precisar, pesquisa, executa… E brincando ela vai achar a solução para os problemas que surgirem, vai ser criativa, vai se reinventar quando algo der errado, vai lidar com a frustração, vai pedir ajuda. Quem não brinca fica diminuído nas suas possibilidades.

Brincar é visto por Winnicott (1975) como uma forma de desenvolvimento universal. Conduz a criança aos relacionamentos grupais, facilitando o crescimento e servindo de meio de comunicação, principalmente nos processos psicoterápicos. Algumas vezes, por si só, a brincadeira é autocurativa, pois o brinquedo ajuda a criança a elaborar as dificuldades emocionais sem que perceba que isso está acontecendo. Freud (1907) dizia que as ocupações favoritas e mais intensas das crianças são os brinquedos e os jogos, e ainda a compara a um escritor criativo, pois a criança é capaz de criar um mundo próprio, cheio de imaginação e riqueza de detalhes. Ela leva a sério sua brincadeira e investe muita emoção nela, conseguindo, entretanto, distinguir brincadeira e realidade. Os brinquedos e os jogos funcionam também como estabelecedores de regras, ajudam o desenvolvimento da coordenação motora e da linguagem.

Proibir a criança de brincar é matar o ser humano no seu início, pois a nossa essência nasce daquilo que nos é fornecido na infância. O conteúdo das brincadeiras, a leveza, a forma de olhar para a vida, insistir no que queremos e não de encontrar obstáculos para nossos objetivos.

Estas características são tão construtivistas e essenciais na formação de um adulto, de um pai, de um profissional, que se pararmos para ler, estudar e fazer uma conexão entre a importância de brincar e os grandes nomes da tecnologia, o que encontraremos? Onde estão os filhos das pessoas que mudaram o mundo com potências como a Apple, Google e Microsoft? Estão brincando em fazendas, livres, em contato com a natureza, longe dos eletrônicos. Eles querem garantir a essência da infância, porque já perceberam que essas crianças são as mais felizes, as mais otimistas, as que serão mais criativas e que irão inventar coisas mais interessantes. Até seus escritórios são diferentes e seus funcionários “livres”. O brincar do adulto é seu processo criador. E é claro que esta criança que planeja brinquedos, cria jogos, anda com os pés descalços, escuta música, dança cantiga de rodas, joga peão, pula corda, etc., será um adulto alegre, e muito mais lúdico e criativo na sua essência.

E assim sendo, não importa a profissão que ele vai escolher, sua probabilidade de ser feliz e ter sucesso é muito grande. Porque será um médico que fala com os pacientes de forma diferente, um arquiteto que cria traços mais ousados, um pintor com novas técnicas de imagem, um pedagogo com olhar diferente…

Não dá para determinarmos o que nossas crianças vão ser quando adultos, mas podemos “implantar” nelas, através da brincadeira, caracteristicas essenciais para serem especiais, para lembrarem sempre de que há uma criança morando em cada adulto, e que esta criança precisa ter voz e vez, pois mantêm em nós o território sagrado da infância, que nos faz olhar o mundo com esperança, compaixão, humildade e leveza.

 

Texto escrito por Gabriela Camarotti

 Fontes: FREUD, S. (1907/8) Escritores Criativos e Devaneios. /WINNICOTT, D. W. O Brincar & a Realidade. Ed. Imago: RJ, 1975/Filme Tarja Branca – A Revolução que Faltava, dirigido por Cacau Rhoden/www.portaleducação.com.br/ monografias.brasilescola.uol.com.br

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O letramento precoce pode ser prejudicial

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O letramento precoce é um assunto permeado por controvérsias. Enquanto algumas instituições de ensino apostam em atividades ligadas à leitura e à escrita, outras defendem a ideia de que é preciso preparar a criança antes de abordar esse tipo de assunto.

Introduzida pelo filósofo e educador austríaco Rudolf Steiner (1861-1925) em 1919, a pedagogia Waldorf defende que os pequenos (com até 7 anos de idade) tenham apenas uma responsabilidade na escola: brincar. Ao participar de jogos e atividades lúdicas, meninos e meninas desenvolvem diversas habilidades, entre físicas e motoras, além de um estímulo essencial para a vida: a confiança. Segundo a teoria, nessa fase o aluno tende a gastar muita energia e se prepara fisicamente – isso é fundamental para o seu desenvolvimento neurológico e sensorial. Tais capacidades refletem em domínio corporal, linguagem oral e, principalmente, contribuem para a inteligência da criança.

Em poucas palavras: na educação infantil, aprimorar essas características é mais importante do que aprender a ler o próprio nome. “Eliminar atividades que favorecem a criatividade e o pensamento pode ter consequências graves. Infelizmente, muitas dessas práticas estão sendo substituídas pela escolarização antecipada”, alerta Luiz Carlos de Freitas, diretor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Os ideais disseminados pelo croata têm ligação direta com estudos elaborados por outro profissional de renome na área, o psicólogo bielorrusso Lev Vygotsky (1896-1934). Ele dizia que a alfabetização é resultado de um processo longo e repleto de etapas, como gestos e expressões. Ao fazer um símbolo no ar, por exemplo, a criança já se manifesta a partir de uma linguagem mais próxima da escrita. Esse aprendizado gradual é imprescindível e deve acontecer nas classes de primeira infância, sem que atividades mecânicas de leitura e escrita atrapalhem ou forcem as etapas de desenvolvimento. “O letramento exige um grau muito grande de amadurecimento neuromotor. Desse ponto de vista, a criança só estará pronta para ser alfabetizada por volta dos 6 anos”, afirma Eliana de Barros Santos, psicóloga e diretora pedagógica do Colégio Global e da Escola Globinho. Segundo ela, brincar leva o aluno a compreender a si mesmo, seus sentimentos e o mundo em que vive. “Essa prática garante a formação das bases necessárias para a construção de outras linguagens”, comenta.

Estimular a leitura precoce, por sua vez, compromete tal formação. Além disso, pode ocasionar problemas como sobrecarga, deficiências na coordenação motora, apatia, desinteresse, desmotivação e estresse. “Aprender a ler não é simplesmente decifrar as letras, mas sim dominar um sistema simbólico, o que exige um grande amadurecimento neuropsíquico”, explica a diretora.

Essa discussão ganhou fôlego principalmente depois da implantação da Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), criada pelo Ministério da Educação (MEC) em 2013. Direcionada a estudantes do 3º ano do ensino fundamental de escolas públicas, a prova avalia os índices de alfabetização e letramento em língua portuguesa e matemática. O objetivo é verificar se as crianças são preparadas corretamente para uma nova fase da vida estudantil. No entanto, uma questão defendida por muitos profissionais da área é que a aplicação de uma prova desse porte pode não ser tão benéfica quanto parece e ter reflexos já nas classes de educação infantil.

De acordo com Sandra Zákia Sousa, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), a ANA tende a fortalecer uma visão que já existe nas unidades escolares – a de que, na primeira infância, é preciso preparar os estudantes para a etapa seguinte, o ensino fundamental. “Fazer isso significa antecipar iniciativas relacionadas a processos de alfabetização e letramento, ou seja, o educador pula etapas importantes e passa a concentrar suas energias em algo que ainda não precisaria ser abordado”, diz.

Para Freitas, testes como a ANA deveriam acontecer apenas a partir do final do ensino fundamental. O formato também poderia ser diferente. O interessante, segundo ele, é que o método avalie as políticas públicas em geral e não a escola. “Um professor sabe muito bem em quais pontos seus alunos são bons ou não”, ressalta.

Pais podem contribuir
Ao mesmo tempo em que a instituição exerce um papel importante, os pais também devem redobrar o cuidado com o letramento precoce. De acordo com Sandra, a pressão pode começar a ocorrer dentro de casa, quando os familiares incentivam a criança a ler palavras ou a escrever nomes aleatórios. “É fundamental que todos se atentem a isso. No lar, bem como na escola, as atividades devem ser adequadas para a faixa etária”, diz.

Fonte: Revista Educação