Posts

Por que estabelecer limites para os nossos filhos?

limite_filhos1

Hoje em dia nos surpreendemos com as condutas de algumas crianças, principalmente quando a forma de falar extrapola o respeito com os próprios pais. Insultos, aumento do tom voz, tapas, birras, “dedo no rosto”, entre outras coisas, são atitudes que passaram a ser comuns, mesmo com crianças muito pequenas. É um tipo de autoridade que está vindo da direção errada: de filhos para pais, como se os papéis estivessem trocados em muitas famílias da atualidade.

O que está acontecendo? Será que foi o estabelecimento de que dar uma palmada, puxar orelha, apertar o braço, são maus tratos? Será que somos uma geração de pais mais instruídos sobre os efeitos negativos da falta de afetividade, e por isso passamos a ter medo de sermos autoritários?  Será que é a culpa que sentimos por estarmos ausentes de casa, trabalhando, e então buscamos uma forma de compensar as crianças através de mimos, presentes caros fora de hora, grandes festas de aniversário e tudo mais o que eles pedirem? O fato é que as crianças do Séc. XXI descobriram uma forma eficaz de manipular os seus pais. E esses estão sentindo muita dificuldade em tomar a rédea da situação. Esta submissão não é nada benéfica para os nossos filhos, que crescem hostis com a sua própria família e com uma crença no poder da autoridade, que cedo ou tarde irá lhes mandar a conta.

Uma criança sem limites sempre irá escolher o que comer, o que os outros devem fazer, quando sair, a roupa que quer vestir (e não a mais adequada), aonde a família irá nas férias, o que assistir na televisão, decidir se os pais irão ou não para uma festa (porque já trabalharam o dia todo), etc. Em resumo, ela ordena, dita e manda tanto nela quanto nos outros.

Por que isto acontece? Porque em geral as crianças têm a empatia subdesenvolvida. Isso quer dizer que não são capazes de experimentar as emoções e os sentimentos que têm a ver com se colocar no lugar do outro. Somos nós, pais e educadores, que precisamos mostrar a elas os limites. Precisamos mostrar que é importante e necessário respeitar o outro, seu espaço, seus sentimentos, suas diferenças. E quando não “tratamos” de impor todas estas regras, limites e conceitos, prejudicamos e comprometemos de forma negativa, mesmo que inconsciente, o futuro dos nossos filhos. Com o tempo, eles se tornarão pessoas autoritárias, possuirão traços de personalidade próprios do egocentrismo, desconhecerão o respeito, o perdão, não terão tolerância à frustração e serão manipuladoras das emoções dos outros quando conhecerem suas fragilidades. É isso que você espera do seu filho?

Sabemos que educar é uma tarefa árdua, complicada, que requer muito esforço e energia que, às vezes, não temos ou não queremos ter. No entanto, quando decidimos ter filhos essa é uma das primeiras premissas que “aceitamos”. Adquirimos a responsabilidade de educá-los, algo que inevitavelmente exige um esforço enorme, e que não nos permite escolhas. Não podemos dar uma educação passiva e relaxada, pois, mais cedo ou mais tarde, poderemos nos deparar com esses comportamentos como pura consequência da nossa ausência como pais, como orientadores e autoridades. As crianças autoritárias levarão muitos tombos até conseguirem aprender, mas nunca entenderão porque ninguém os educou direito desde o início.

O grande problema é quando vem a adolescência, e essas “características negativas” já estão instaladas. Um furacão de pensamentos contraditórios passa pela cabeça deles, aliado às mudanças hormonais, aos conflitos típicos da fase, e tudo isso pode terminar em um ser humano bastante intolerante e agressivo.

Sabemos que somos seres em contínuo processo de aprendizagem, mas é na infância que se instalam as bases da educação e da personalidade. É a fase em que se planta a semente que crescerá no dia de amanhã. E a família precisa ser vista pela criança como uma base sólida, onde ela encontrará atitudes e sentimentos que serão fundamentais para sua vida adulta:

  • Apoio mesmo nos momentos em que errar – É o que gera uma pessoa ousada e segura, que não olhará para o erro como uma fonte de humilhação, de fraqueza e de desequilíbrio, e sim como uma oportunidade para fazer melhor, como um aprendizado.
  • Limites e regras claros quanto ao que é certo e o que é errado desde o início da vida – O estabelecimento e exigência para cumprimento das regras trará sentido de responsabilidade e justiça, fundamentais para a criança alcançar a felicidade na vida adulta.
  • Cumprimento das promessas e ameaças – Viver na incerteza não oferece segurança. Se um dia castigamos nosso filho por não ter organizado seu quarto, mas no dia seguinte deixamos passar, certamente ele não levará nossas normas a sério e não se importará com as consequências ao infringi-las. Esta “certeza” ou questionamento da impunidade fará do nosso filho um adulto, possivelmente, infrator de regras.
  • Experimentos de afetividade e emoções positivas – O amor é a base para favorecer o desenvolvimento de uma personalidade otimista e confiante.
  • Cuidado com as recompensas dadas de forma inadequada – Uma norma não é uma sanção. Arrumar a cama e levantar na hora certa para ir à escola não é um castigo. Há quem pense que é necessário recompensar cada um dos bons atos das crianças, mas a finalidade é que entendam suas responsabilidades. Mais que recompensar, devemos fazer elogios. Comunicar um: “Estou orgulhosa de você” é, por exemplo, o melhor reconhecimento que podemos dar a eles.
  • E quando cometerem um erro? – Quando as crianças fizerem algo errado ou demonstrarem um comportamento pouco responsável, também não é indicado utilizar um castigo muito punitivo.Seguiremos utilizando a educação democrática: devemos ensiná-los como podem melhorar, pensar com eles antes de estabelecer uma “lei”. Fazê-los perceber por que seu comportamento precisa melhorar. À medida que demonstrem responsabilidade, iremos concedendo-lhes mais direitos, mais oportunidades.
  • Organize um plano antecipadamente – Neste plano, você deve dizer que tipo de limites você deseja definir em um ambiente saudável e seguro, e estabelecer algo que você esteja disposto a cumprir através da direção correta; se o seu filho tem dificuldade para responder, recorra à estrutura preestabelecida.
  • O respeito tem que ser mutuo – Quando as crianças são maiores, a urgência de colocar à prova os limites se faz mais intensa, do mesmo jeito que a sua capacidade de desafio. Por isso, é importante tentar “negociar” com ele para que cumpra as normas, sempre ouvindo-o e dando atenção a sua opinião.Em muitos casos será necessário chegar a um ponto intermediário, isto é, encontrar um mecanismo para que ele possa experimentar os seus limites, sem que estes sejam desafiadores em excesso.

Criar filhos responsáveis, independentes e maduros para que se itegrem perfeitamente à sociedade, sendo felizes, em um mundo que compreendem e no qual possam desenvolver-se perfeitamente; esse é o nosso sonho como pais. Jamais teremos a certeza ou a fórmula para que isso aconteça, mas precisamos tentar, nos apoiar na ciência, nos estudos e na experiência.

Precisamos jogar a culpa fora e encarar que nossos filhos são de uma geração que tem mães que trabalham fora de casa, pais mais ausentes, tecnologia para informá-los e também agitá-los. Essa é a realidade da maioria, é o mundo onde nasceram. Contudo, nessa realidade nosso papel se torna ainda mais desafiador, “educar em menor tempo”.  Para tanto precisamos acreditar neles, acreditar na nossa capacidade e no nosso amor verdadeiro, o maior que já conhecemos: amor que dá colo e limites, o equilíbrio que nos forma.

 

Texto escrito por: Gabriela Camarotti

Posts

Mães e filhos: o vínculo eterno.

gabi e meninos

Cada filho leva consigo a sua mãe. É um vínculo eterno do qual nunca poderemos nos desligar. Para termos saúde e sermos felizes, cada uma de nós deve conhecer de que maneira nossa mãe influenciou nossa história e como continua influenciando.

Quando conseguimos compreender os efeitos que a criação teve sobre nós, começamos a compreender a nós mesmos e termos a certeza da importância do nosso papel como mães.

Conforme Christiane Northrup, na sua obra Mães e Filhas, “o vínculo mãe-filho está estrategicamente desenhado para ser uma das relações mais positivas, compreensivas e íntimas que teremos na vida.” No entanto, isso nem sempre acontece assim…

As influências, e até o amor de uma mãe, também podem ser problemáticos, tóxicos para o filho.  De forma inconsciente, por excesso de proteção, algumas mães se tornam mestres em educar as crianças sem estimular seu crescimento pessoal e sua segurança. Projetam sobre seus filhos todos os seus medos e frustrações, na intenção de não fazê-los sofrer, de protegê-los contra as dores da vida. Com isso, entregues ao mundo no futuro, eles poderão ter sua independência física e emocional prejudicadas, se tornando pessoas inseguras e incapazes de lidar com as adversidades.

A mãe representa pontos cruciais na formação do ser humano, da personalidade do filho. É a partir dos conceitos que passamos para eles que se desenvolverão as habilidades no trato social, familiar, psicológico e até mesmo ambiental. O amor e atenção dispensados, a qualidade do tempo juntos (e não a quantidade de tempo), a harmonia da casa, o bom relacionamento com o marido e a satisfação própria como mulher, são as peças que formam um bom ambiente familiar (ufa, quanta coisa!), e esse ambiente é fundamental para assegurar a construção do psiquismo dos filhos, possibilitando o desenvolvimento saudável dos comportamentos sociais, que se estenderão para as demais fases da vida.

Portanto, não podemos acreditar que “o tempo” mudará nossos filhos, nem esperar que com o crescimento os defeitos comportamentais que observamos na infância venham a desaparecer, precisamos agir enquanto ainda são pequenos… Mas como desempenhar bem nosso principal papel se hoje dividimos o tempo de sermos mãe com os afazeres do trabalho, de ser esposa, de administrar a casa e de ainda ter que conseguir tempo para cuidar da saúde, do corpo e da beleza?

O primeiro passo é tentar eliminar a culpa pela ausência, admitir que não somos perfeitas e que não precisamos ser “modelos” de mãe. Outro, talvez o mais importante, é conseguir dar amor e limites no pouco tempo em que estamos juntos com nossos filhos. Porque essa “equação” é capaz de criar pessoas autônomas, que saberão lidar com erros e serem empáticas.

Que medo é esse que nossa geração de pais tem de educar? O que há de arriscado em impor regras e sustentá-las? Nossos filhos não podem chorar, ficar com raiva, sofrer e se frustrar?

Porque eles precisam de uma bolsa nova (de marca famosa) a cada ano escolar quando a “velha” ainda está em perfeitas condições de uso? Por que a cada festa eles têm que estrear uma roupa nova? Por que compramos tantos presentes sem datas específicas (aniversário, dia das crianças)? Por que premiamos nossos filhos quando eles cumpriram apenas uma obrigação (como fazer boas avaliações ou não chorar para ficar na escola)? Precisamos refletir sobre o que estamos ensinando às pessoas que mais amamos na vida, sobre como estamos preparando elas para o futuro.

Será que nós, pais e mães que os criamos assim, estamos prontos para adolescentes que vão bater a porta e sair sem dar “tchau”? Será que estamos prontos para filhos adultos que não saberão ceder numa relação amorosa? Que não saberão como lidar com o trabalho em equipe? Que não irão tolerar as diferenças quando forem líderes? Essas poderão ser algumas das consequências… É deste amor “toxico” que falamos no início do texto; o amor que prejudica, mesmo que de forma inconsciente.

Desde a mais tenra idade os pequenos devem receber, de forma clara e objetiva, orientações sobre suas tarefas e limites. E isso precisa ser feito, mesmo que seus pais estejam com eles poucas horas por dia. Em seu livro “Filhos adultos mimados, pais negligenciados”, Tania Zagury afirma que “de tanto amor pelos filhos e de tanta culpa pela ausência, os pais da atualidade ficam cegos de paixão, e assim, sem perceber, se tornam incapazes de concretizar atitudes necessárias à formação de cidadãos éticos, produtivos, equilibrados, capazes de confiar em si mesmos”. Para Zagury, “os limites são fundamentais para a formação da personalidade. São eles que vão ajudar a criança a desenvolver a capacidade de suportar frustrações”.

Fui frustrada diversas vezes e não me lembro dos meus pais se importarem se eu estava gostando ou não; naquele momento o foco era educar, mostrar as fronteiras das atitudes e palavras; fronteiras que me ensinaram a respeitar as outras pessoas, que me ensinaram que não é proibido errar, e que ninguém fica traumatizado porque se frustrou. Lembrem-se de uma coisa importante: liberdade demais pode ser interpretada pela criança como falta de afeto.  As crianças querem ser aceitas e amadas pelos pais, isso nunca mudará, mas quem sabe o que é bom ou ruim para a vida não é uma criança de 5 anos de idade, e sim seus pais.

Há princípios, valores, moral familiar e social que eles não entendem ainda, mas serão gratos se nós ensinarmos, mesmo que para isso a gente “perca” um pouco do nosso precioso tempo juntos com conversas “chatas” ou momentos de reflexões sobre os erros cometidos por eles. Para compensar, ou melhor, para “completar” este momento de amor, da criação de equilíbrio e autoestima, façamos nossos malabarismos para tornar nossas horas juntas significativas: Acompanhar o desempenho deles na escola, fazer as refeições possíveis em família (à mesa), conversar à noite, desligar o celular quando chegar em casa (até que durmam), colocar para dormir, conversar, contar histórias (mesmo para os que sabem ler), sentar para jogar e reservar momentos especiais para o final de semana.

A qualidade destes momentos de atenção, mesmo que concentrados em um determinado período do dia, aliada aos finais de semana, aos limites, à criação da rotina, tudo isso de forma sistemática, fará com que a criança se sinta amada, importante, valorizada e parte da família. Fará com que entenda o que é a vida.

Só mais uma coisa: Não se sinta uma mãe frustrada (ou pais frustrados).  Não há receita quando o assunto é a educação dos filhos. Há estratégias que funcionam, outras que só conseguimos colocar em prática por um tempo, além das estratégias que não funcionam; apenas isso. São tentativas que devem vir aliadas à leitura, ao conhecimento de como cada filho funciona, às orientações da escola e de pessoas especializadas… Contudo, mais importante que qualquer estratégia ou conhecimento específico é o afeto, o colo, o carinho, a paciência para estar com eles “de verdade”, por inteiro, mesmo que seja um “pedacinho” do dia, ou seja, o amor verdadeiro, de quem nasceu para ser mãe e não apenas para parir uma criança.

Texto escrito por Gabriela Camarotti

Fontes de estudo: Psicologia do Desenvolvimento – Lannoy Dorin, Artigos acadêmigos sobre John Bowlby e a Teoria do Apego, Tânia Zagury – Filhos adultos mimados, pais negligenciados, Christiane Northrup- Mães e Filhas.

 

Posts

Mães e pais: precisamos conversar sobre o WhatsApp

Há 7 anos, esse aplicativo adentrou em nossa vida digital e, de lá para cá, passou a ser uma opção imediata na criação de contatos, sendo inevitável que qualquer pessoa que o utilize seja colocada compulsoriamente em algum grupo ou seja criadora de um ela mesma, com a finalidade de ter notícias da família, conectar-se rapidamente com filhos, colegas de trabalho, grupos de amigos e, por que não, com os pais e as mães da mesma turma de seu(sua) filho(a) na escola.

A tecnologia facilita algumas relações, e ferramentas como o whatsapp permitem que grupos conversem de forma privada sobre os mais variados assuntos. No entanto, tais grupos possuem diferentes objetivos, e a clareza desses objetivos e limites é objeto da reflexão que propomos a seguir.

Como todo tema difícil, precisamos assumir o desafio de enfrentá-lo e entendemos que uma boa conversa e o esclarecimento de como a Escola vem interpretando o fenômeno “conversas entre pais nos grupos de whatsapp” se torna necessária e urgente.

Em nossa escola, a maioria dos pais participa de grupos assim para trocar informações relacionadas ao dia a dia das crianças. Entendemos que esse canal ajuda muito a tratar rapidamente de assuntos corriqueiros que envolvem toda sorte de combinados, os quais podem vir a fortalecer as relações de convívio e permitem divulgar e promover programas culturais entre as crianças, bem como facilitam a organização de rodízios e caronas, comunicam festas e aniversários, divulgam ações comunitárias, alertam para adoecimentos contagiosos (e que já foram comunicados pelos pais e responsáveis à escola, ufa!), enfim, que, de fato, promovam uma aproximação e uma cultura colaborativa entre as famílias.

Esse é o aspecto que vemos como mais positivo desses grupos: ampliaram as rodas das portas da escola e incluíram aqueles que não dão conta de levar e buscar seus filhos todos os dias. Mas em que medida aparecem, também, temas que geram desconforto entre os participantes dos grupos de whatsapp, assuntos que promovem desavenças e interpretações precipitadas de fenômenos inerentes ao cotidiano escolar?

Vivemos muitas situações nas quais a escola é informada indiretamente sobre cenas do cotidiano distorcidas, parcialmente analisadas, com uma lupa sobre ações de crianças e/ou professores, nas quais, via de regra, há estigmatizações, prejulgamentos superficiais e, muitas vezes, deixando de lado o principal interessado em esclarecer qualquer ocorrido, a escola! À escola resta, nessas circunstâncias, realizar um conjunto de ações que visem comunicar e esclarecer encaminhamentos que deveriam fazer parte da confiança básica dos familiares em relação aos profissionais.

18_4_2016_3Uma criança que agride não é, necessariamente, uma ameaça; um objeto que desaparece não é, necessariamente, resultado de um furto; um adulto que fica bravo não foi, obrigatoriamente, inadequado; uma frase tirada do contexto (coisa comum para uma criança que relata uma cena em casa) não quer dizer, literalmente, o que foi dito; uma família desorganizada temporariamente não deixa de amar e cuidar de seus filhos; uma provocação infantil não é sempre bullying. Precisamos ponderar, e quem pode fazer isso, com toda a propriedade, são os profissionais da escola escolhida pelas famílias para acolherem seus filhos!

Há também outras situações igualmente embaraçosas nas quais surgem desrespeito entre pais, mães, responsáveis, com escritas que acuam, constrangem, julgam ou reprimem condutas, nem sempre conhecidas devidamente. A expressão desses julgamentos efêmeros ganha concretude escrita, ao contrário das palavras orais que se esvaem e são esquecidas. Indisposições e eventualmente inimizades são criadas desnecessariamente.

E eis em cena algo que conversamos imensamente com nossos estudantes, sejam da EI, do F1, do F2 ou do Médio: determinadas conversas, determinados assuntos DEVEM ser tratados face a face, pessoalmente, mediados por olhar, tom de voz, gestos e com o equilíbrio necessário quando enfrentamos contendas comuns à vida na coletividade.

Ficamos, como comunidade de educadores, perplexos com a manifestação de falta de tolerância e de disponibilidade para o outro, o diferente, temas tão caros para a escola, valores que passamos anos a forjar na formação integral de nossos alunos e alunas.

Como disse Paula Sibilia, em recente palestra na escola, os muros e as paredes não são suficientes mais para cercearem e definirem os contextos, pois eles são invadidos por aqueles que lá não estão.

18_4_2016_1Observamos situações nas quais mães e pais interferem na construção de responsabilidades próprias do estudante, pedindo aos pais dos colegas cópias das lições de casa que seus filhos não anotaram, conferindo orientações de estudos, revisando provas, comentando questões e consignas dos trabalhos, ações todas voltadas para resolver problemas que deveriam ser dos alunos. Ou seja: aos olhos da escola, retiram desafios fundamentais para seus filhos na busca de evitarem frustrações e situações que podem ser profundamente educativas para o futuro dos mesmos. Como irão esses jovens, tutorados pelos pais, assumir suas responsabilidades atuais e futuras se lhes roubamos a oportunidade de aprender?

Assim, assumimos, com todos os riscos aqui envolvidos, a tentativa de deixar-lhes recomendações para que os grupos de whatsapp entre pais e mães caminhem com tranquilidade, respeito mútuo e amabilidade frente a temas desafiadores:

Ponderar: é esperado que alguns pais se angustiem mais que outros frente a algumas situações. Assim, vale a experiência e os comentários de quem já viveu situações análogas e sempre pode contribuir. Forma-se, então, uma rede que se autorregula e se ajuda nos desafios esperados ao longo do crescimento num grupo de convívio escolar.

18_4_2016_4

Compreender: que os membros do grupo pensam de formas diferentes e têm distintos graus de intimidade, ou seja, lidam de forma mais ou menos reservada, a depender do assunto e da forma como ele é apresentado.

Endereçar: atuar no grupo de forma a dimensionar a necessidade de remeter à escola quando as questões precisam ser tratadas pela orientação e somente encontram razão de ser se abordadas na escola e pela escola.

Dialogar: lembrar sempre que o diálogo, seja em redes sociais ou pessoalmente, é uma via de mão dupla, em que cada um tem o direito de colocar suas ideias nos limites do direito do outro, cuidando da linguagem e demonstrando o respeito que todos merecemos.

E, para finalizar, entendemos que a reflexão e a transparência sobre os alcances dessa ferramenta como mediadora de temas complexos entre pais e escola tende a amadurecer na comunidade escolar.

Fonte: Posted on 18 de abril de 2016 by

Por Fernanda Flores 

45 ideias sobre “Mães e pais: precisamos conversar sobre o WhatsApp”

Posts

A importância da Literatura Infantil

banner educação infantil

Era uma vez, uma arte milenar que virou tradição no mundo inteiro: contar histórias. Esta era uma forma encontrada por povos antigos de transmitir suas crenças e suas culturas. Com o passar do tempo, o registro gráfico de contos, lendas e mitos, aos poucos foram sendo executados. Novas versões de um mesmo conto aconteceram, assim, as histórias foram sofrendo alterações e ganharam desenhos, inicialmente em preto e branco e mais tarde foram apresentados ao leitor com belas ilustrações.

Com a possibilidade cada vez maior de circulação de informações os contos se proliferaram e ganharam o mundo através dos livros, que aos poucos foram substituindo os contadores de praças. Depois vieram nossos avós, os pais, familiares e as historinhas atravessaram gerações. Com a modernidade, outros recursos foram sendo utilizados como o cinema, a televisão e agora o computador. Estes recursos deram formas dinâmicas aos personagens, deram vida e vozes muito próximas a realidade, personagens que antes dependiam apenas de nossas imaginações ganham vida própria, será que tornaram-se mais sedutores do que os bons e velhos livros?

Talvez não, o livro resiste bravamente e pode e sua utilização deve ser incentivada, não como obrigação, mas acima de tudo como prazer. Uma via de manifestação da fantasia e um recurso valioso que leva ao caminho da descoberta e da aprendizagem. Ao lermos um bom livro viajamos, conhecemos culturas, hábitos, povos diferentes, despertamos sentimentos que nem imaginaríamos e ainda, utilizamos recursos internos únicos.

É também ouvindo historias que as crianças entram em contato com o mundo da escrita. No momento em que alguém lê para uma criança acontece o deciframento das palavras, aquelas pequenas letras aos poucos ganham significações, inicialmente realizadas por um tradutor, em geral pais, avós, irmãos mais velhos, mais tardes os professores. E é através desse imaginário que os pequenos futuros leitores têm a chance de elaborar e projetar sentimentos como medo, coragem, alegrias, tristezas, tranqüilidade, insegurança. A criança experimenta sensações ambíguas sem, no entanto, desistir delas, pois faz parte de seu amadurecimento emocional. É como diz Abramovich “é sentir e enxergar com os olhos do imaginário”.(1980).

Para Bettelheim, um dos psicanalistas que se interessou pelos temas dos contos de fadas, as crianças se identificam com os contos porque “eles falam de sua impressões internas graves de um modo que elas inconscientemente compreendem e – sem menosprezar as lutas interiores mais sérias que o crescimento pressupõe – e oferecem exemplos tanto de soluções temporárias quanto permanentes para as dificuldades prementes”. 2 Ou seja, o que acontece é que podemos claramente observar é que a criança quando ouve ou lê histórias têm a oportunidade de projetar seus sentimentos, de se identificar com personagens, mesmo que em alguns momentos seja o herói e em outras o vilão, o protetor ou protegido.

A fantasia pode ser vivida com intensidade, dando a chance à criança de aprender e a lhe dar com alguns de seus conflitos internos, ou até mesmo externos. As carências e medos são despertados com intensidade. As elaborações permitem ao pequeno sujeito se desenvolver colocando o desejo para funcionar, desenvolvendo o afeto e a curiosidade pelos elementos dos livros.

A literatura infantil é também uma forma importante de transmissão cultural, através dela as crianças tomam conhecimento de hábitos e maneiras de viver de povos distantes. Entramos em contato com diferentes narrativas e podemos relacionar com fatos e costumes históricos.

Apesar de todos os recursos tecnológicos atuais, dificilmente uma criança deixa de se envolver com uma boa leitura de história. Estão aí as feiras de livros que não nos deixam mentir, cresce cada vez mais a produção de livro infanto-juvenil. Recentemente tivemos o “boom” dos livros da série O Diário de Um Banana, apesar de todas as duras críticas feitas à obra, seu sucesso entre pré-adolescentes é inegável. Assim como na época do Harry Potter, quando a autora trouxe de volta a magia dos clássicos livros infantis com sua pitada de abracadabras, bruxos e vassouras voadoras. Também fala do desamparo, das conquistas, da sabedoria e do mistério, a autora vai assim resgatando as misturas que fazem parte do universo mágico infanto-juvenil.

Walt Disney também foi muito criticado pelas versões que deu aos contos clássicos de autores como Perrault, Jacob Grimm e Wilhelm Grimm (mais conhecidos como os Irmãos Grimm), Andersen e outros. Em alguns contos Disney faz profundas modificações, mas, mesmo assim, ainda considero que ele foi, em grande parte, responsável pelo retorno do interesse nos contos clássicos. Claro que sua difusão acabou sendo melhor aproveitada pela cinematografia, no entanto,  a produção literária teve seu impulso incentivado por sua obra.

No Brasil temos autores maravilhosos como Monteiro Lobato, Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Ziraldo, que não só explanam o universo infantil, como difundem o Folclore brasileiro através de suas lendas e culturas.

Contar e criar histórias são dois exercícios ricos e interessantes que revelam coisas que nem sabíamos que sabíamos, além de interagirmos com um mundo que por vezes ficou adormecido nos recantos de nossas infâncias.

“Os temas dos contos de fada não são fenômenos neuróticos, algo que alguém se sente melhor entendendo racionalmente de forma a poder se livrar deles. Tais temas são vivenciados como maravilhas porque a criança se sente entendida e apreciada bem no fundo de seus sentimentos, esperanças e ansiedades, sem que tudo isso tenha que ser puxado e investigado sob a luz austera de uma racionalidade que ainda está aquém dela. Os contos de fadas enriquecem a vida da criança e dão-lhe uma dimensão encantada exatamente porque ela não sabe absolutamente como as estórias puseram a funcionar seu encantamento sobre ela.”2

As crianças estão constantemente envolvidas com o mundo lúdico e a leitura pode e deve fazer parte desse mundo, mostrar figuras, deixar que as crianças analisem o que nelas contém e dar a oportunidade do afloramento da imaginação pode fazer parte de um jogo criativo e prazeroso.

Abramovich nos diz sabiamente, “Imaginar é também recriar realidades”. E prossegue mais adiante “Pois é só estarmos atentos ao nosso processo pessoal, às nossas relações com os outros e com o mundo, à nossa memória e aos nossos projetos, para compreender que a fantasia é uma forma de ler, de perceber, de detalhar, de raciocinar, de sentir o quanto a realidade é um impulsionador (e dos bons!!!) para desencadear nossas fantasias…1 (p. 138)

A escola é considerada por Nelly Coelho (2000), como um lugar privilegiado para o encontro com a literatura para esta autora “os estudos literários (…) estimulam o exercício da mente; a percepção do real em suas múltiplas significações; a consciência do eu em relação ao outro; a leitura do mundo em seus vários níveis e principalmente, dinamizam o estudo do conhecimento da língua, da expressão verbal significativa e consciente – condição sine qua non para a plena realidade do ser”.3

Não se lê história apenas para quem ainda não sabe ler, pelo contrário, a arte de contar histórias atravessou o mundo e o tempo, e inicialmente ela era contada principalmente para adultos.Temos a Bíblia como um exemplo perfeito disso.

Foi dessa maneira que o homem encontrou uma forma de transmissão de valores morais e culturais, transmitiu suas crenças e seus costumes, muitas histórias transmitem mitos, lendas e folclore. Geralmente, as histórias contêm em si uma mensagem, o que é comumente falado como a “moral da história”. Algumas dessas mensagens são otimistas e outras amedrontadoras; como Pinóquio que era delatado com o crescimento de seu nariz ao mentir.

“O ouvir historinhas pode estimular o desenhar, o musicar, o sair, o ficar, o pensar, o teatrar, o imaginar, o brincar, o ver o livro, o escrever, o querer ouvir de novo (a mesma história ou outra). Afinal, tudo pode nascer dum texto! No princípio não era o verbo? Então…” (Abramovich, 1997, p 22)

Na sala de aula o que deve ser despertado inicialmente é a curiosidade, conseqüentemente o prazer de ler, a leitura obrigatória só afastará os futuros leitores. Os chamados livros para-didáticos têm sido usados de maneira a incentivar a leitura, no entanto, o que tem sido observado é que as crianças acabam criando aversão a eles e afastam-se ao invés de se aproximarem do livro. A obrigatoriedade de preencher uma ficha ao final da leitura do livro, parece roubar o prazer, é mais uma testagem de verificação para ver quem leu ou não do que uma interpretação bem explorada do que o aluno absorveu da leitura.

Muitos estudos estão sendo desenvolvidos por pesquisadores nas Universidades sobre o efeito do aproveitamento da literatura infanto-juvenil como um processo facilitador da aprendizagem da lecto-escrita em crianças em fase de alfabetização, e os resultados têm sido muito positivos.

Os livros são perfeitos estimuladores da visão de mundo, da percepção, facilitam a comunicação, possibilita o desenvolvimento da imaginação e autonomia de pensamento. Alguém que lê e que ouve histórias desenvolve a memória, a linguagem, a leitura e conseqüentemente a escrita.

Texto escrito por Rita Simone Rossi C. Amado

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

  1. ABRAMOVICH, Literatura infantil. Gostosuras e Bobices. SP, Ed. Scipione, 1997.
  2. BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de janeiro, Ed. Paz e Terra, 1980.
  3. COELHO, Nelly N. Literatura Infantil. Teoria. Análise. Didática. SP: Moderna, 2000.
  4. GILLIG, Jean-Marie. O conto na psicopedagogia. Porto Alegre: ARTMED, 1999.

 

 

Posts

Sono x Aprendizagem

iStock_000068761197_Small-e1439319417808

Com o corre-corre da atualidade, estamos dormindo cerca de 20% menos do que os nossos antepassados, porque trabalhamos e estudamos por mais horas e ainda temos várias programações sociais noturnas. Não só os adultos, mas também as crianças e os adolescentes estão cada vez mais com as horas do dia comprometidas com tarefas e compromissos, reduzindo as horas disponíveis para o sono.

Muitas vezes ouvimos falar que a criança cresce enquanto dorme. Isso é verdade se considerarmos que na infância, a maioria dos hormônios do crescimento são liberados durante o sono.  Crianças que dormem mal possuem mais chances de terem problemas no seu desenvolvimento físico. Uma boa noite de sono repara os desgastes dos músculos e renova o sistema imunológico para um melhor desempenho, além de favorecer um equilíbrio do humor.

O sono noturno ajuda a controlar o metabolismos energético, relacionado à alimentação. A neurologista Rosa Hasan, responsável pelo laboratório do sono do Hospital São Luiz (SP), explica que o sono de qualidade ruim, desorganiza o metabolismo e prejudica a síntese de alguns hormônios, favorecendo a doenças como obesidade e depressão.

Nas últimas décadas, os cientistas descobriram que o sono é mais do que uma simples regeneração do nosso sistema nervoso. Durante o sono, dá-se a ativação do processo de aprendizagem, essencial para a formação da memória de longo prazo. Durante o sono, o cérebro não desliga, continua ativo.  Quando entramos em sono profundo, ativamos o cerebelo e as regiões frontais do cérebro que renovam nossa coordenação motora e a capacidade de planejar e executar tarefas, além de processar e armazenar as experiências vividas (aprendizagem do dia).

Uma boa noite de sono favorece a atenção e concentração durante o dia, enquanto um sono ruim dificulta a concentração que gera diminuição de registro na memória, além de favorecer para uma agitação do pensamento, que Augusto Cury denomina de SPA- Síndrome de Pensamento Acelerado. É muito comum que essa síndrome seja confundida com TDAH- Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, devido à agitação e dificuldade de atenção.

Pesquisas recentes mostram a importância não só do sono noturno, mas também os “cochilos diurnos” para fortalecer a memória. Os neurocientistas levando em consideração o cronotipo de cada indivíduo (preferência por determinados horários para realização de tarefas) dividem os indivíduos em matutinos, os que preferem dormir e acordar cedo e vespertinos, que enfrentam enormes dificuldades em dormir e acordar cedo. Isso acontece devido ao ritmo biológico de cada indivíduo.  Essa diferença se acentua na fase da adolescência, onde ocorre um atraso em relação ao relógio biológico, dificultando o acordar cedo e dormir cedo. Por esse fato biológico, alguns neurocientistas defendem a mudança no horário de início das aulas para os adolescentes, começando pelo menos duas horas mais tarde, porém os críticos ainda defendem que acordar cedo é uma questão de hábito, ignorando em pleno século XXI, os fatores do desenvolvimento biológico. Um bom cochilo diurno ajuda no bem estar da criança, no crescimento, no autocontrole emocional, no humor, na memória e no desenvolvimento em geral.

Assim como aprendemos a respeitar as diferenças individuais ligados ao desenvolvimento cognitivo e emocional, precisamos aprender a respeitar as diferenças ligadas aos desenvolvimentos biológicos de cada indivíduo, mas como toda nova experiência, temos que ter paciência para que ocorra assimilação e acomodação das novas descobertas biológicas.

Diante do conhecimento da importância do sono, surge a dúvida da quantidade ideal de horas para um bom sono noturno. Todos já ouviram dizer que é necessário dormir 8h por dia para se sentir bem. A quantidade ideal de horas para um bom sono noturno varia com a necessidade de cada indivíduo. Alguns indivíduos necessitam de apenas com 6 horas de sono para se sentirem bem, enquanto outros de até 10h.  Neurocientistas estabelecem uma média para adulto de 7 à 8 horas de sono diário, enquanto as crianças de 2 à 5 anos, precisam de 11 à 13 horas de sono ( noturnos e diurnos), Crianças de 6 à 10 anos, de 9 à 11 horas de sonos noturnos e os adolescentes precisam de uma média de 10h noturnas.

Conhecendo a importância do sono para o nosso cérebro e para nosso desenvolvimento geral, devemos tentar viver em harmonia com o nosso sistema neurofisiológico. Como vimos, a falta de boas noites de sono causam muitas consequências importantes: diminui a memória e atenção, aumentam risco de problemas cardíacos, aumenta o risco de obesidade, diminui a imunidade, ocasionam aparência cansada, altera o humor, favorece dores musculares, entre outras. Mesmo consciente dessas consequências, a privação de sono é uma realidade crescente na nossa sociedade. A correria do dia a dia, as extensas jornadas de trabalho e estudo e o crescente uso de aparelhos eletrônicos são fatores impactantes na qualidade do sono. Tudo isso nos convida a parar e refletir sobre os nossos hábitos de vida. Devemos tirar o pé do acelerador, diminuindo o ritmo de compromissos, disponibilizando mais tempo para o sono. Para que assim tenhamos ótimas noites de sono e dias bem mais tranquilos e produtivos.

Texto escrito por Betânia Carneiro Leão ( Fonoaudióloga e Supervisora Pedagógica da Escola Vila Aprendiz)

Posts

EM QUE TEMPO ESTAMOS VIVENDO?

5360bd81e3f4504b4d564c120ab89c20_XL

Cronologicamente estamos vivendo no século XXI. Algumas pessoas tão preocupadas com o futuro, perdem as maiores riquezas do presente; outras estão tão arraigadas ao passado que reproduzem modelos arcaicos e sem significados.

O que fazer diante desta dicotomia? Qual o caminho a seguir?

Mario Sergio Cortela faz uma analogia interessante, que nos ajuda a refletir diante desta situação. Ele diz: “Se os alunos não são mais os mesmos, se o mundo não é mais o mesmo, como fazer do mesmo modo?”.

Em um automóvel, o retrovisor é sempre menor que o para-brisa. Claro! Porque passado é referência, não é direção. Nosso horizonte, que é o que o para-brisa mostra, é o futuro.

Algumas pessoas pensam em educação como um veículo que tem um para-brisa menor do que o retrovisor. Em todo o instante miram o passado, achando que as respostas estão em outros tempos. Muitas vezes elas podem estar lá mesmo, porém de lá só devemos trazer aquilo que precisa ser preservado, protegido e levado adiante. Contudo, muitas vezes, no nosso passado, o que encontramos é arcaico, aquilo que deve ser superado, deixado de lado. Estamos vivendo momentos de crise em nosso País, mas crise é um momento em que o que é velho ainda não morreu e o que é novo, ainda não nasceu. Esses momentos graves nos levam a parar, respirar e escolher caminhos.

Cortela diz que os momentos graves significam, como sempre na história da humanidade, a possibilidade de momentos grávidos. Sim, assim como a mulher grávida sofre para dar a luz, momentos graves são também grávidos! Afinal de contas, toda situação grave contém uma gravidez, ou seja, a possibilidade de dar luz a uma nova situação.

Porém, na educação, muita gente enxerga só a gravidade do momento e não vê a gravidez que ela contém. Passa a vida lamentando o tempo presente e recorrendo ao passado como o tempo ideal.

Enquanto reproduzimos uma educação “tradicional”, ou melhor, arcaica, a Finlândia, país primeiro colocado no ranking de educação, não se acomoda na condição de modelo educacional, “inicia mais uma reforma em busca de melhorias”, detalha Marjo Kyllonen, secretária de educação de Helsinque, numa entrevista a revista Educação, em Janeiro deste ano.

É de conhecimento de todos os educadores, que a educação tradicional foi criada para a era industrial, onde o foco era o trabalho individual, obediência `as regras, produção em massa e estabilidade no mercado de trabalho.

Mas o mundo mudou, as famílias mudaram e as crianças mudaram. Como essas crianças, educadas em um sistema arcaico, serão absorvidas por um mercado que busca criatividade e coletividade?

Marjo Kyllonen diz: “não estamos preparando as crianças adequadamente para o que vem por aí e para o que já está acontecendo.”

Se ela, que está a frente de uma Educação considerada a número um no mundo, faz esse alerta, o que diremos nós, educadores brasileiros, que lutamos para informar a nossa geração de pais que a escola que os formou tem que viver transformações para formar seus filhos?

Agora a realidade é outra, a do disciplinamento da convivência, do uso de tecnologia e da capacidade de construção de uma escola que não seja arcaica, que saiba lidar com aquilo que é secular, mas que não pode estar em outro século que não o século em que ela está.

O outro século tem que vir para agora e não a Escola estar em outro século. Mudança é algo muito difícil para nós humanos, sentimos prazer naquilo que nos é familiar, mas às vezes precisamos promover mudanças. Um ditado árabe diz: “Homens são como tapetes, às vezes precisam ser sacudidos.” É preciso dar uma sacudida e tirar a poeira de tempos em tempos.

Agora, vamos rever  nossos conceitos, flexibilizar nossas atitudes e alterar nossa postura para que possamos viver literalmente o século XXI.

 Fonte: Texto escrito por Sandra Kattah – Diretora Pedagógica da Escola Vila Aprendiz

 

Posts

Como lidar com o tema “perdas” e a morte com as crianças?

luto

Morreu o cachorrinho… E agora? Como dar a notícia? Dizer que virou “estrela”?

Acolher as inquietações de cada um e responder às dúvidas com explicações verdadeiras é um caminho para auxiliar a superar uma perda, seja ela qual for.

TERMINA A VIDA. O QUE VEM DEPOIS? Quem enfrenta a tristeza de uma morte vivencia o luto até a perda ser aceita. Para auxiliar a enfrentar essa fase, que é importante ser “falada” e vivida, é preciso falar com sinceridade. Respostas fantasiosas tendem a prolongar o sofrimento.

“É uma coisa curiosa, a morte (…). Todos nós sabemos que o nosso tempo neste mundo é limitado e que eventualmente todos nós acabaremos embaixo de algum lençol para nunca mais despertar. E, no entanto, é sempre uma surpresa quando isso acontece com alguém que conhecemos.” Reflita por alguns instantes sobre como você se sentiu ao ler essa citação do autor infanto-juvenil Lemony Snicket, no livro Raiz-Forte. Quais sentimentos prevaleceram: medo? Resignação? Indignação? Identificação? A resposta depende da maneira como cada um lidou (e lida) com as inevitáveis perdas que a vida nos traz – a de um amigo que se mudou para longe, o desaparecimento de um animal de estimação ou a morte de um parente querido. Sempre que um desses eventos ocorre, passamos pela chamada elaboração do luto – um processo psicológico que atinge o indivíduo, sua família e os grupos da sociedade dos quais ele participa, um período doloroso (e necessário) de intensa tristeza, que dura até que a pessoa aceite a perda e possa seguir em frente com a vida.

Embora as crianças (sobretudo as mais novas) ainda não compreendam inteiramente a ideia de morte, o assunto deve ser discutido na escola e em casa para que elas tenham a oportunidade de trocar opiniões com os colegas e também encontrar apoio para encarar o sofrimento. A origem da crise, em geral, se dá com a morte de um familiar ou de uma pessoa próxima, mas também pode ocorrer em casos como a separação dos pais, a morte de uma personalidade famosa e até de uma mudança brusca, como a troca de cidade ou de escola. Todas essas situações geram dificuldades para as crianças. Como o comportamento das pessoas ao redor interfere no enfrentamento das perdas, uma intervenção adequada no momento certo é de grande importância, podendo ajudar no encaminhamento do luto e no restabelecimento das condições emocionais dos pequenos.

Para os estudiosos do tema, o principal requisito para uma atuação eficaz é se apoiar na verdade. Afinal, uma informação distorcida pode interferir na conscientização da perda e na sua aceitação. “A morte faz parte do processo da vida. Contar uma mentira, dizer que a pessoa foi viajar, que virou estrela ou qualquer outra resposta evasiva só irá prolongar o sofrimento. Quando se deparar com a verdade, a criança se sentirá enganada e a relação de confiança será quebrada”, explica Valéria Tinoco, supervisora do Instituto de Psicologia 4 Estações, em São Paulo.

VAI-SE O LUTO, FICAM AS LEMBRANÇAS. Passado o período de intensa tristeza, a criança não esquece o que ocorreu. A perda continua sendo uma lembrança muitas vezes dolorosa, mas já não a impede de tocar a vida em frente. Isso, entretanto, não significa que a discussão seja simples. E não é simples porque são raros os pais que educam os filhos para enfrentar perdas, como são raras as escolas que incentivam discussões sobre o tema. Acredita-se que o tempo se encarregará de ensinar. Não pode ser assim. É preciso falar que nossa existência é finita. Desde os 2 anos, a criança é capaz de entender a perda: um animal de estimação que foge, a ausência dos pais e a morte em desenhos animados. Porém, até os 3/4 anos ela tem a ideia de que isso é reversível.

Aos 4 anos, o medo e a culpa começam a andar juntos. Nesta fase ele começa a ter medo que seus desejos de ira contra seus entes queridos se torne realidade. É importante deixar claro em uma conversa entre pais e filhos que, por mais que ele esteja zangado por algum motivo, isso vai passar e o amor entre eles não será abalado.

Ao passar do tempo os medos começam a possuir mais relação com a realidade. Os medos mais comuns entre 6 e 7 anos são o fracasso escolar, de perder pessoas queridas, de errar.

 O que eles mais temem?

Aos 6 anos 

  • Pessoas deformadas (temem que o problema aconteça com elas);
  • Chegar atrasado à escola;
  • Ser esquecido na escola;
  • Fracasso escolar;
  • Medo do erro;
  • De perder as pessoas queridas;
  • Da rejeição social

Aos 7 anos

  • Escuro;
  • Seres sobrenaturais;
  • De passar por ridículo;
  • Fracasso escolar;
  • Medo de errar

Como lidar com o medo:

  • Dar atenção, questionar e estimular a criança a enfrentar o medo. Ela encontrará sozinha uma solução para as suas fantasias.
  • Não fale demasiado sobre o assunto para evitar que a criança fique mais ansiosa.
  • Mude de assunto e distraia. Mas nunca deixe de responder aos questionamentos.
  • Fale sempre a verdade sobre os medos reais para que a criança tenha a noção de perigo. Ela tem de saber, por exemplo, que as escadas e as piscinas representam alguns riscos, mas não é preciso exagerar.
  • Brinque com o seu filho e entre na fantasia dele. As experiências lúdicas ajudam a lidar com as suas ansiedades, o bicho mau é um exemplo.
  • Bonecos e brinquedos treinam a criança para a vida. As crianças gostam de representar em brincadeira o sentimento de medo frente a uma situação real, como a ida a um hospital.
  • Faça a apresentação formal das pessoas para que a criança saiba que aquele estranho tem autorização dos pais para se aproximar.
  • Ofereça objetos para que a criança se sinta mais segura, principalmente na hora de dormir. São os objetos aos quais chamamos transacionais e que reduzem a ansiedade da criança até adormecer.
  • Avalie a intensidade do medo e fique atenta para o limite da normalidade, que faz parte da rotina saudável da vida.

Texto adaptado por Gabriela Camarotti. Fontes: Blog Oficina de Psicologia, Revista Fábulas).