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Por que estabelecer limites para os nossos filhos?

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Hoje em dia nos surpreendemos com as condutas de algumas crianças, principalmente quando a forma de falar extrapola o respeito com os próprios pais. Insultos, aumento do tom voz, tapas, birras, “dedo no rosto”, entre outras coisas, são atitudes que passaram a ser comuns, mesmo com crianças muito pequenas. É um tipo de autoridade que está vindo da direção errada: de filhos para pais, como se os papéis estivessem trocados em muitas famílias da atualidade.

O que está acontecendo? Será que foi o estabelecimento de que dar uma palmada, puxar orelha, apertar o braço, são maus tratos? Será que somos uma geração de pais mais instruídos sobre os efeitos negativos da falta de afetividade, e por isso passamos a ter medo de sermos autoritários?  Será que é a culpa que sentimos por estarmos ausentes de casa, trabalhando, e então buscamos uma forma de compensar as crianças através de mimos, presentes caros fora de hora, grandes festas de aniversário e tudo mais o que eles pedirem? O fato é que as crianças do Séc. XXI descobriram uma forma eficaz de manipular os seus pais. E esses estão sentindo muita dificuldade em tomar a rédea da situação. Esta submissão não é nada benéfica para os nossos filhos, que crescem hostis com a sua própria família e com uma crença no poder da autoridade, que cedo ou tarde irá lhes mandar a conta.

Uma criança sem limites sempre irá escolher o que comer, o que os outros devem fazer, quando sair, a roupa que quer vestir (e não a mais adequada), aonde a família irá nas férias, o que assistir na televisão, decidir se os pais irão ou não para uma festa (porque já trabalharam o dia todo), etc. Em resumo, ela ordena, dita e manda tanto nela quanto nos outros.

Por que isto acontece? Porque em geral as crianças têm a empatia subdesenvolvida. Isso quer dizer que não são capazes de experimentar as emoções e os sentimentos que têm a ver com se colocar no lugar do outro. Somos nós, pais e educadores, que precisamos mostrar a elas os limites. Precisamos mostrar que é importante e necessário respeitar o outro, seu espaço, seus sentimentos, suas diferenças. E quando não “tratamos” de impor todas estas regras, limites e conceitos, prejudicamos e comprometemos de forma negativa, mesmo que inconsciente, o futuro dos nossos filhos. Com o tempo, eles se tornarão pessoas autoritárias, possuirão traços de personalidade próprios do egocentrismo, desconhecerão o respeito, o perdão, não terão tolerância à frustração e serão manipuladoras das emoções dos outros quando conhecerem suas fragilidades. É isso que você espera do seu filho?

Sabemos que educar é uma tarefa árdua, complicada, que requer muito esforço e energia que, às vezes, não temos ou não queremos ter. No entanto, quando decidimos ter filhos essa é uma das primeiras premissas que “aceitamos”. Adquirimos a responsabilidade de educá-los, algo que inevitavelmente exige um esforço enorme, e que não nos permite escolhas. Não podemos dar uma educação passiva e relaxada, pois, mais cedo ou mais tarde, poderemos nos deparar com esses comportamentos como pura consequência da nossa ausência como pais, como orientadores e autoridades. As crianças autoritárias levarão muitos tombos até conseguirem aprender, mas nunca entenderão porque ninguém os educou direito desde o início.

O grande problema é quando vem a adolescência, e essas “características negativas” já estão instaladas. Um furacão de pensamentos contraditórios passa pela cabeça deles, aliado às mudanças hormonais, aos conflitos típicos da fase, e tudo isso pode terminar em um ser humano bastante intolerante e agressivo.

Sabemos que somos seres em contínuo processo de aprendizagem, mas é na infância que se instalam as bases da educação e da personalidade. É a fase em que se planta a semente que crescerá no dia de amanhã. E a família precisa ser vista pela criança como uma base sólida, onde ela encontrará atitudes e sentimentos que serão fundamentais para sua vida adulta:

  • Apoio mesmo nos momentos em que errar – É o que gera uma pessoa ousada e segura, que não olhará para o erro como uma fonte de humilhação, de fraqueza e de desequilíbrio, e sim como uma oportunidade para fazer melhor, como um aprendizado.
  • Limites e regras claros quanto ao que é certo e o que é errado desde o início da vida – O estabelecimento e exigência para cumprimento das regras trará sentido de responsabilidade e justiça, fundamentais para a criança alcançar a felicidade na vida adulta.
  • Cumprimento das promessas e ameaças – Viver na incerteza não oferece segurança. Se um dia castigamos nosso filho por não ter organizado seu quarto, mas no dia seguinte deixamos passar, certamente ele não levará nossas normas a sério e não se importará com as consequências ao infringi-las. Esta “certeza” ou questionamento da impunidade fará do nosso filho um adulto, possivelmente, infrator de regras.
  • Experimentos de afetividade e emoções positivas – O amor é a base para favorecer o desenvolvimento de uma personalidade otimista e confiante.
  • Cuidado com as recompensas dadas de forma inadequada – Uma norma não é uma sanção. Arrumar a cama e levantar na hora certa para ir à escola não é um castigo. Há quem pense que é necessário recompensar cada um dos bons atos das crianças, mas a finalidade é que entendam suas responsabilidades. Mais que recompensar, devemos fazer elogios. Comunicar um: “Estou orgulhosa de você” é, por exemplo, o melhor reconhecimento que podemos dar a eles.
  • E quando cometerem um erro? – Quando as crianças fizerem algo errado ou demonstrarem um comportamento pouco responsável, também não é indicado utilizar um castigo muito punitivo.Seguiremos utilizando a educação democrática: devemos ensiná-los como podem melhorar, pensar com eles antes de estabelecer uma “lei”. Fazê-los perceber por que seu comportamento precisa melhorar. À medida que demonstrem responsabilidade, iremos concedendo-lhes mais direitos, mais oportunidades.
  • Organize um plano antecipadamente – Neste plano, você deve dizer que tipo de limites você deseja definir em um ambiente saudável e seguro, e estabelecer algo que você esteja disposto a cumprir através da direção correta; se o seu filho tem dificuldade para responder, recorra à estrutura preestabelecida.
  • O respeito tem que ser mutuo – Quando as crianças são maiores, a urgência de colocar à prova os limites se faz mais intensa, do mesmo jeito que a sua capacidade de desafio. Por isso, é importante tentar “negociar” com ele para que cumpra as normas, sempre ouvindo-o e dando atenção a sua opinião.Em muitos casos será necessário chegar a um ponto intermediário, isto é, encontrar um mecanismo para que ele possa experimentar os seus limites, sem que estes sejam desafiadores em excesso.

Criar filhos responsáveis, independentes e maduros para que se itegrem perfeitamente à sociedade, sendo felizes, em um mundo que compreendem e no qual possam desenvolver-se perfeitamente; esse é o nosso sonho como pais. Jamais teremos a certeza ou a fórmula para que isso aconteça, mas precisamos tentar, nos apoiar na ciência, nos estudos e na experiência.

Precisamos jogar a culpa fora e encarar que nossos filhos são de uma geração que tem mães que trabalham fora de casa, pais mais ausentes, tecnologia para informá-los e também agitá-los. Essa é a realidade da maioria, é o mundo onde nasceram. Contudo, nessa realidade nosso papel se torna ainda mais desafiador, “educar em menor tempo”.  Para tanto precisamos acreditar neles, acreditar na nossa capacidade e no nosso amor verdadeiro, o maior que já conhecemos: amor que dá colo e limites, o equilíbrio que nos forma.

 

Texto escrito por: Gabriela Camarotti

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