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Mitos e verdades no Construtivismo – Parte 2

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Mito:Os estudantes fazem o que querem

VerdadeO planejamento é baseado nos conhecimentos prévios de cada um

Por colocar o foco na relação entre o estudante e o saber, e por entender que a aprendizagem é um processo individual, o construtivismo é visto algumas vezes como justificativa para as crianças fazerem o que bem entendem e seguirem a própria vontade. Para Sonia Barreira, diretora-geral da Escola da Vila, em São Paulo, esse é outro grande mal-entendido: “O maior equívoco de todos é achar que o construtivismo prescinde da figura do professor. Pelo contrário, é ele quem organiza as situações para os alunos aprenderem”.

Sequências como a realizada pela docente Rosimeire Pereira de Almeida, do Sesc Araguaína, a 385 quilômetros de Palmas, mostram como ocorre uma costura cuidadosa das etapas propostas. Ela planejou, junto com a coordenação pedagógica, atividades para que a turma da Educação Infantil, de 3 e 4 anos, desvendasse o que está por trás de alguns experimentos e brincadeiras, como a bolha de sabão. “Nessa faixa etária, eles são muito curiosos e cheios de perguntas. Resolvemos aproveitar isso para organizar uma sequência didática que trouxesse alguns procedimentos científicos, como investigar, testar e registrar”, afirma.

Cada atividade tinha como norte uma pergunta. Para introduzir o experimento que indagava “Flutua ou afunda?”, a professora conversou com o grupo sobre o que é flutuar e afundar. Os pequenos, então, escolheram objetos que puderam encontrar por perto – de tampas de garrafas a folhas de árvores, frutas e pedrinhas do jardim da escola – e, divididos em grupos, levantaram hipóteses. Em geral, eles achavam que os grandes iriam para o fundo do recipiente enquanto os menores ficariam sempre na superfície. A educadora levou um aquário para a sala e conforme as crianças testavam suas ideias, observaram que o acontecimento depende muito mais da forma do objeto do que do tamanho dele. Ao final, meninos e meninas registraram suas constatações. Como ainda não sabem escrever convencionalmente, a maioria deles desenhou enquanto outros escreveram à sua maneira, o que estimula um procedimento real do dia a dia: anotar e guardar informações que podem ser úteis depois.

As crianças testam as hipóteses e registram as conclusões dos experimentos

Em outro momento, os pequenos foram desafiados a descobrir como fazer bolhas de sabão gigantes, maiores do que aquelas feitas com brinquedos infantis simples, típicos das festas de aniversário que eles frequentam. Experimentaram usar varetas com aros de circunferências e materiais diversos e uma receita com açúcar e água. Descobriram, então, que a brincadeira é mais eficiente quando o aro é maior e que é mais fácil fazer a bolha grande com o círculo de metal do que com uma linha ou barbante.

A investigação ficou a cargo da turma, mas os materiais e a ordem das propostas foram definidos pela docente. O respeito ao interesse infantil, portanto, convive em harmonia com a intencionalidade pedagógica. “A curiosidade é algo que o professor usa para apresentar conteúdos. Preparar o cenário e as intervenções para isso tem a ver com algo estruturante em Ciências, que é trazer situações-problema e propiciar momentos para resolvê-las”, diz Luciana Hubner, diretora da Abramundo e consultora de NOVA ESCOLA.

Mito:Só funciona com crianças

VerdadeColabora com o aprendizado em qualquer idade

Eles têm mais de 18 anos. Alguns até já passaram dos 60. E estão estudando sob uma abordagem construtivista. “Ser um educador com essa inspiração implica um trabalho forte de planejamento e entendimento dos alunos para propor atividades que os façam aprender considerando quem são e o que já compreendem. Isso não tem necessariamente a ver com quantos anos têm”, argumenta Sylvia Xavier, professora de História da Fase 9 (equivalente ao último ano do Fundamental) da Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo.

A aula de Sylvia sobre a política brasileira no século 20 é um exemplo de como o construtivismo se traduz na EJA. Em grupos organizados para combinar idades e níveis de leitura diferentes – para um se beneficiar do saber do outro -, a turma analisou uma lista com os presidentes da república depois de 1930. A educadora colocou perguntas que chamaram a atenção para aspectos como a duração da Era Vargas (1930- 1945) e a existência de um interino (como os técnicos de futebol conhecidos pelos alunos). Antes de fechar as respostas, houve muito debate, sempre com a docente mediando, sem atrapalhar a expressão de ideias. Durante a discussão, a classe se interessou pela ditadura militar (1963-1985) e lembrou das manifestações que se referiram a esse regime no início de 2015. Isso colaborou para o planejamento de novas aulas sobre o tema.

Com a atividade, Sylvia respeitou o nível de compreensão da turma e permitiu que todos se desenvolvessem. Prova de que a teoria se relaciona a como se aprende e não em que momento da vida isso acontece. “Piaget estudou crianças, mas a construção de conhecimento existe em qualquer idade”, diz Yves de La Taille.

A teoria na prática

“Que é o construtivismo? Basicamente se pode dizer que é a ideia que sustenta que o indivíduo – tanto nos aspectos cognitivos e sociais do comportamento como nos afetivos – não é um mero produto do ambiente nem um simples resultado de suas disposições internas, mas, sim, uma construção própria que vai se produzindo, dia a dia, como resultado da interação entre esses dois fatores.”
Mario CarreteroConstrutivismo e Educação

“O professor construtivista deve conhecer a matéria que ensina. Mas, por uma razão diferente da que se imagina. Antes, tratava-se de saber bem para transmitir ou avaliar corretamente. Agora, trata-se de saber bem para discutir com a criança, para localizar na história da ciência o ponto correspondente ao pensamento dela, para fazer perguntas ‘inteligentes’, para formular hipóteses, para sistematizar, quando necessário.”
Lino de MacedoEnsaios Construtivistas (172 págs., Ed. Casa do Psicólogo, tel.3003-4952, 44 reais)

“Para a concepção construtivista, aprendemos quando somos capazes de elaborar uma representação pessoal sobre um objeto da realidade ou um conteúdo que pretendemos aprender.”
Isabel Solé e César CollO Construtivismo na Sala de Aula (221 págs., Ed. Ática, tel. 4003-3061, 51,50 reais).

Fonte: Revista Nova Escola (Agosto 2015)

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