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O Vínculo do Afeto

 

afeto

Fundamental para o processo de aprendizagem, a construção de uma relação de qualidade com os alunos desafia educadores, na mesma medida em que apresenta caminhos concretos para o enriquecimento dos processos em sala de aula.

A maioria das pessoas lembra, de alguma forma, como a relação com um ou mais professores marcou sua vida escolar. É simples perceber assim, puxando pela memória, que uma teia de sentimentos, emoções, sentidos e subjetividade se insere na relação entre professor e aluno, determinando a qualidade da escolarização e do processo de aprendizagem. Paradoxalmente, porém, nem sempre é fácil trazer esta percepção à luz, transformando o aspecto afetivo em uma parte consciente e intencional da prática cotidiana em sala de aula.

Abordagens afetivas – que enxerguem os alunos integralmente em sua dinâmica de aspectos emocionais, motores, culturais e sociais – não soam naturais para muitos educadores, principalmente depois da educação infantil e dos primeiros anos do ensino fundamental. Uma das causas dessa percepção é histórica: a educação ocidental pós-iluminista privilegiou a ideia do aprender associado à aquisição de conhecimento de modo técnico, objetivo e racional. Nesse contexto, alunos e professores pertenciam a universos diferentes e bem determinados, com interação bastante limitada.

Á luz do século 21, entretanto, a discussão sobre afetividade no ambiente escolar ganha nova relevância. Sem outros espaços de convívio e com pais ausentes pelos mais diversos motivos, as crianças estão chegando a escola com uma carência afetiva cada vez maior, apontam especialistas e professores. Problemas da escola atual como violência, indisciplina, desmotivação e dificuldade de manter a atenção podem também ter origem na falta de vínculo com o professor – e, portanto, poderiam ser minimizados na construção deste. Os desafios para transformar uma escola meramente racional em uma escola afetiva, porém, ainda são muitos.

Não é possível afirmar, porém, que as mudanças apontadas pelo especialista tenham sido assimiladas. “Precisamos levar em conta que há uma distância temporal entre o que é produzido na forma de pensamento e o que se estabelece na realidade. Mesmo que contemos com métodos e pensadores que deem centralidade para os afetos, uma parte considerável dos professores ainda tem a crença de que a escola é local de construção de conhecimento e de que este processo se dá apenas pela via da racionalidade”, ressalta Luciano Mendes de Faria Filho, professor de História da Educação da Faculdade de Educação da UFMG.

Mas, afinal, de que afetividade estamos falando? Até mesmo conceituar o termo é difícil, tendo em vista as diversas teorias a respeito. A definição usada no início deste reportagem – a da construção de uma relação pautada por uma visão de aluno integral, com aspectos emocionais, motores, culturais e sociais – foi escolhida por ser considerada a mais abrangente, capaz de abarcar todos os aspectos da relação entre professor-aluno; aluno-escola. Atente-se, porém, que ela nada tem a ver com “passar a mão na cabeça” ou deixar der estabelecer limites, como evidenciam professores que buscam adotar essa abordagem em sua prática pedagógica. Ou que tratar o aluno com afetividade tenha a ver necessariamente com dar carinho ou ser afetuoso. “Trata-se muito mais de dar atenção ao que afeta este ser, seja de maneira negativa ou positiva. Quanto mais educador tiver consciência do que está presente nas dinâmicas estabelecidas na relação direta com os alunos, maior será a chance de utilizar os recursos corretos para auxiliar o aprendizado”, enfatiza Anita Abed, psicóloga e pesquisadora da Unesco.

Além da relação entre alunos e professores, não se deve esquecer que os afetos também determinam a forma como crianças e jovens vivenciam a sua interação com o ambiente escolar – e que este tem um sentido bastante particular dentro do contexto social contemporâneo. “Muitas vezes a escola é o único ambiente em que os alunos podem socializar, compartilhar ideias, se sentirem ouvidos e verdadeiramente valorizados. O que vemos é uma grande carência por parte das crianças e jovens”, explica Ana Maria Império, psicóloga e orientadora Educacional do Colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo. A diminuição dos espaços de lazer e encontros, o excesso de atividades como cursos e outras obrigações, a diminuição de tempo de convívio com os pais ( que realizam jornadas de trabalho cada vez maiores) e a virtualização das relações com o uso das novas tecnologias são alguns dos motivadores dessa carência afetiva, citada também pelos professores ouvidos pela reportagem.

Não se pode negar, entretanto, que a formação dos professores é consideravelmente frágil na oferta de situações de reflexão e prática sobre como estabelecer relações saudáveis e realmente construtivas com os alunos. Para Heloisa Helena, professora de pós-graduação na PUCCAMP, esta irregularidade na formação quando o assunto são as delicadezas presentes na interação com os alunos, ajuda a fortalecer uma cultura que enxerga de forma cindida cognição afetividade “Existe uma questão de identidade muito interessante que é perceptível em pesquisas que realizo com docentes em formação no curso de pedagogia. A grande maioria afirma categoricamente que ser professor é transmitir conteúdos. Em alguns casos essa concepção acaba até afastando esses profissionais da atuação na educação infantil, fortemente pautada pela interação afetiva e desprivilegiada nos cursos de formação”, assinala a especialista.

Não está nas mãos dos professores, porém, a responsabilidade de construir uma escola mais afetiva. Os gestores também têm um importante papel como reguladores das relações, além de poderem contribuir com informações e estímulos. “Não é fácil mudar uma postura enraizada e solidificada, mas é um processo a longo prazo que vale a pena”, afirma Nina Porto. E, assim como o que se espera em sala de aula, este processo também precisa ser pautado por sentimentos como respeito e confiança.

“Defendo que é preciso que o cuidado com a afetividade seja nutrido em todas as relações dentro da escola, incluindo aí todos os funcionários. Desta forma cria-se uma cultura afetiva capaz de influenciar a todos e auxiliar diretamente os professores em seus desafios diários”, completa Ana Maria Império.

Fonte: Revista Educação

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